Em Microfísica do Poder, Michel Foucault demonstra que a instituição prisional, concebida no discurso como instrumento de correção e emenda moral, revelou desde cedo a sua ineficácia reformadora. Longe de reeducar, a prisão organiza e intensifica práticas ilícitas, consolidando trajetórias criminais e constituindo uma categoria social de “delinquentes”. Essa percepção precoce — a de que o cárcere funciona, na prática, como uma fábrica de delinquência — é central para compreender o lugar da prisão nas sociedades disciplinares.
A partir da obra “Microfísica do Poder”, de Michel Foucault, é correto afirmar que o reconhecimento precoce de que a prisão não cumpre seu projeto originário de reformar os criminosos, mas atua, na prática, como uma fábrica de delinquentes, não resultou no abandono da instituição carcerária, uma vez que essa delinquência produzida demonstrou ter uma utilidade estratégica fundamental na economia do poder. (FUNDATEC – Defensor Público / DPE-SC / 2026)
Apesar desse diagnóstico, a prisão não foi descartada. Segundo Foucault, a delinquência produzida pelo próprio sistema penal tem uma utilidade estratégica na chamada economia do poder. Ao tornar visível, classificável e controlável um segmento específico de ilegalismos, o cárcere permite que o poder público administre riscos, legitime a expansão de aparelhos de vigilância e castigo, e direcione a repressão de forma seletiva. A existência de um “delinquente” típico sustenta narrativas de segurança, alimenta práticas policiais e periciais e reforça a distinção entre ilegalismos tolerados e aqueles escolhidos como prioritários para punição.
Nessa lógica, a prisão opera como tecnologia de governo das populações: seleciona, etiqueta e normaliza, ao mesmo tempo em que mantém um estoque manejável de sujeitos sob permanente observação. As relações internas ao cárcere, as carreiras criminais que ali se estruturam e a circulação de saberes periciais em torno do “delinquente” não são meros efeitos colaterais; são componentes funcionais de um dispositivo que, ainda que falhe em ressocializar, cumpre papel político-jurídico decisivo. Por isso, o reconhecimento de sua ineficácia não implicou sua extinção, mas a sua manutenção como peça útil na engrenagem do poder.