Sim. As dinâmicas contemporâneas das prisões brasileiras favorecem o surgimento e o fortalecimento de facções prisionais justamente porque há recorrentes violações de direitos por parte do Estado. A partir da criminologia, compreende-se que a prisionização — processo de adaptação do indivíduo ao ambiente carcerário — ocorre em contexto de superlotação, precariedade e violência institucional, fatores que empurram os presos para redes de proteção e pertencimento oferecidas pelas facções. Quando o Estado não garante integridade física, dignidade e acesso a serviços básicos, grupos organizados ocupam esse vácuo, fornecendo regras, assistência e segurança, e, com isso, ampliam seu poder de recrutamento e coesão.
“As dinâmicas contemporâneas das prisões brasileiras favorecem o surgimento e fortalecimento de facções prisionais em razão de violações de direitos por parte do Estado.” (FCC – Defensor Público / DPE-GO / 2021)
As violações mais recorrentes incluem superlotação, ausência de separação por perfil e periculosidade, deficiências em saúde, educação e assistência jurídica, além de práticas de maus-tratos. Nessas condições, a sobrevivência passa a depender de alianças. Facções estruturam normas internas, mediação de conflitos, controle de celas e acesso a bens escassos, ocupando espaços que deveriam ser assegurados pelo poder público. Essa governança paralela se fortalece porque o Estado, ao violar ou omitir-se no cumprimento de direitos, perde legitimidade e capacidade de controle, transformando o cárcere em ambiente fértil para a consolidação dessas organizações.
O resultado é um efeito criminógeno do sistema: em vez de reduzir a criminalidade, a prisão, tal como operada, potencializa redes ilícitas e projeta a influência das facções para além dos muros. A entrada massiva e prolongada de presos provisórios, somada à falta de programas de classificação e ressocialização, acelera a socialização no submundo carcerário, reforçando vínculos, códigos e lealdades. Assim, violações estatais não são apenas pano de fundo; elas funcionam como combustível para a organização e a expansão faccional.
Para fins de prova, é essencial fixar a relação causal destacada: violações de direitos perpetradas pelo Estado nas prisões brasileiras tendem a promover o surgimento e o fortalecimento de facções. O reconhecimento desse nexo é central nas abordagens críticas da criminologia e explica por que políticas de respeito a direitos, gestão prisional técnica e garantia de condições mínimas são indissociáveis do enfrentamento sustentável às facções.