Em coerência com o pensamento de Michel Foucault, o eixo central de Vigiar e punir é a descrição de uma profunda mudança nas práticas históricas de punição e de governo dos corpos, mudança que culmina na construção histórica das ciências humanas e na produção de um novo sujeito. Essa transformação se dá sob a égide de uma tecnologia de exame constante e do estudo de “casos”, por meio da qual indivíduos passam a ser observados, descritos, comparados e normalizados.
“Pode-se afirmar que, de modo coerente com o pensamento foucaultiano, o tema central em Vigiar e punir é a descrição de uma alteração nas práticas históricas que culminaria na construção histórica das ciências humanas e de um novo sujeito, sob a égide de uma tecnologia de exame constante e estudo de “casos”.” (NC-UFPR – Defensor Público / DPE-PR / 2014)
Foucault mostra a passagem de um modelo de poder centrado no suplício público e na vingança soberana para um regime disciplinar, difuso e capilarizado, que opera em instituições como prisões, escolas, quartéis, fábricas e hospitais. Nesse novo regime, técnicas como a vigilância sistemática, o registro minucioso de condutas e a avaliação periódica organizam o cotidiano, moldando comportamentos. O foco desloca-se do ato para o autor: interessa menos o crime isolado e mais o indivíduo enquanto objeto de saber e intervenção.
É nesse contexto que se consolida a tecnologia do exame, dispositivo que individualiza e classifica, convertendo pessoas em casos a serem analisados. O exame articula olhar, registro e comparação, produzindo documentação contínua e séries históricas sobre cada um. Dessa prática emerge um corpo de saberes — psicologia, criminologia, psiquiatria, pedagogia — que se legitimam como ciências humanas ao prometer diagnosticar, medir e normalizar condutas, ao mesmo tempo em que fabricam o “sujeito” que descrevem.
Para a criminologia crítica, essa leitura é decisiva: a criminalidade não é apenas um dado natural, mas também um produto de práticas institucionais que selecionam, rotulam e administram populações. Ao construir o delinquente como “caso” permanente de observação, o sistema penal legitima intervenções contínuas e expande mecanismos de controle social. Assim, Vigiar e punir oferece a chave para compreender a seletividade penal e problematizar discursos de ressocialização que, muitas vezes, apenas reforçam a normalização e a disciplina.