Segundo Hannah Arendt, a condição humana, delineada pelo conjunto da vita activa, fornece uma moldura concreta para apreender o significado inicial da dignidade humana como elemento existencial que institui a comunidade política. Em vez de procurar uma natureza humana universal, intrínseca — abordagem que tenderia a uma espécie de deificação do humano — Arendt orienta o olhar para o que as pessoas efetivamente fazem e compartilham no mundo comum. É nessa experiência pública, vivida e plural que a dignidade se afirma e ganha relevância política.
“A visão da condição humana apresentada por Hannah Arendt, formada pelo conjunto da vita activa, é absolutamente apropriada para se apreender o inicial significado da dignidade humana como elemento existencial instituinte da comunidade política, pois a condição humana não se confunde com a busca de uma natureza humana universal, intrínseca, o que remeteria a uma espécie de deidade.” (FUMARC – Delegado de Polícia Substituto / PC-MG / 2021)
A vita activa remete às dimensões do viver que se expressam no labor, no trabalho e, sobretudo, na ação e na palavra em um espaço de aparição comum. Nessa chave, a dignidade decorre da capacidade humana de iniciar, participar e conviver em pluralidade, e não de uma essência metafísica imutável. Ao desvincular a condição humana da busca por uma natureza universal, Arendt evita essencialismos e reafirma que a dignidade se enraíza nas relações e práticas que fundam e mantêm a vida política.
Para a Criminologia Crítica, essa leitura é decisiva: compreender o humano a partir da condição e da experiência, e não de uma suposta natureza, impede a naturalização do desvio e do rótulo de “criminoso”. A dignidade humana emerge como parâmetro histórico e relacional que limita o poder punitivo, orienta garantias e exige instituições que reconheçam sujeitos concretos em sua participação no mundo comum. Assim, Arendt oferece um fundamento teórico que reforça a centralidade da dignidade na crítica às formas de controle social e às respostas penais que desconsideram a pluralidade e a ação.