No Brasil, o encarceramento cresceu de forma acelerada a partir dos anos 2000. Uma leitura apressada tende a atribuir esse salto apenas à desigualdade social e às vulnerabilidades estruturais. Contudo, a compreensão correta — e exigida pelas bancas — é que essa elevação não se explica exclusivamente pelos níveis de desigualdade. O fenômeno se articula, de modo decisivo, com uma política criminal ambígua desenvolvida no período, que combinou discursos de garantias e inclusão com práticas de endurecimento punitivo e expansão do controle penal.
Sobre a política criminal brasileira e o encarceramento, é correto afirmar que a elevação dos índices de encarceramento não pode ser explicada exclusivamente pelos índices de desigualdade social verificados no Brasil a partir dos anos 2000, relacionando-se com a política criminal ambígua verificada no período. (FCC – Defensor(a) Público(a) – P1 / DPE-BA / 2026)
Chama-se “ambígua” porque, ao mesmo tempo em que se afirmavam diretrizes de prevenção social da violência e de respeito a direitos, avançaram medidas legislativas e decisões institucionais que ampliaram a incidência e a intensidade do sistema penal. Exemplos desse giro punitivo incluem o maior protagonismo da guerra às drogas como eixo de criminalização, a ampliação de tipos e interpretações mais severas, o uso extensivo da prisão preventiva e restrições a benefícios executórios. Esses vetores, somados, criaram um ambiente de encarceramento em massa independentemente de oscilações conjunturais na desigualdade.
Na prática, a combinação de policiamento orientado para repressão de delitos de rua, critérios pouco nítidos para diferenciar usuário e traficante, foco em prisões em flagrante e um ethos judicial mais rigoroso em medidas cautelares produziu fluxos constantes de entrada no cárcere. A isso se somaram tempos de permanência maiores, por entraves à progressão e à saída antecipada. Assim, mesmo que a desigualdade contribua para a seletividade do sistema, ela não basta para explicar o crescimento do estoque prisional sem considerar as escolhas normativas e institucionais do período.
Para fins de prova, retenha a síntese: a elevação do encarceramento brasileiro pós-2000 decorre da interação entre fatores sociais e, sobretudo, de uma política criminal ambígua, que manteve um duplo movimento de afirmação de direitos e simultâneo endurecimento repressivo. Logo, é incorreto atribuir o fenômeno exclusivamente à desigualdade; a chave interpretativa exigida é o desenho e a orientação das políticas criminais adotadas no período.