A moderna vitimologia entende que a vítima nem sempre ocupa um papel neutro ou meramente involuntário na dinâmica do delito. Em vez de enxergar o crime apenas pela ótica do autor, essa abordagem analisa a interação vítima-ofensor e reconhece a existência de fatores de predisposição vitimal — características, rotinas e contextos que podem aumentar a exposição ao risco. A partir dessa perspectiva, estudar a vítima e sua relação com o ambiente é tão relevante quanto estudar o infrator para compreender como os crimes acontecem.
“Para a moderna vitimologia, nem sempre a vítima possui um papel neutro ou involuntário na dinâmica do fato criminoso, razão pela qual existiriam fatores de predisposição vitimal, podendo- se, através de estudos empíricos, efetuar uma melhor prevenção do crime, não por intermédio da abstenção do infrator, mas por uma mudança de atitude da vítima em potencial.” (PGR – Procurador da República / PGR / 2013)
Esses fatores de predisposição vitimal podem ser de ordem individual, situacional ou relacional. Estudos empíricos investigam como estilos de vida, escolhas de deslocamento, padrões de uso de bens, vínculos interpessoais e ambientes frequentados podem elevar a probabilidade de vitimização. Importa destacar que essa leitura não transfere culpa penal à vítima; ela busca identificar condições de risco para orientar políticas e práticas de prevenção mais efetivas, ancoradas em evidências.
Consequentemente, a prevenção, sob essa ótica, não depende da abstenção espontânea do infrator, mas de uma mudança de atitude da vítima em potencial. Isso inclui ajustar rotinas e comportamentos para reduzir vulnerabilidades, adotar medidas de proteção de alvos e de cuidados situacionais, bem como cultivar percepção de risco e tomada de decisão informada em contextos críticos. Ao alterar condições que facilitam a ocorrência do crime, diminui-se a oportunidade criminosa e, por tabela, a incidência de vitimizações.
Na prática, essa abordagem subsidia estratégias como campanhas educativas, desenho e uso mais seguro de espaços, protocolos pessoais de segurança e escolhas informadas em relações e transações cotidianas. Para quem estuda para concursos, é essencial fixar a ideia central: a vitimologia contemporânea valoriza a análise empírica do risco e orienta a prevenção principalmente por intervenções voltadas à vítima em potencial — e não pela expectativa de autocontenção do ofensor.