Na perspectiva da policização, a criminologia observa como a própria instituição policial estrutura e reproduz os processos de controle social. Um dos pontos centrais é o perfil de recrutamento dos seus operadores. No contexto brasileiro e latino-americano, em geral, essas agências selecionam seus integrantes nas mesmas camadas sociais que mais sofrem os efeitos das seleções criminalizante e vitimizante. Em outras palavras, os quadros da polícia tendem a ser compostos, majoritariamente, por pessoas oriundas de classes populares, territórios periféricos e grupos historicamente vulnerabilizados, que também figuram com maior frequência como alvos da atuação penal e como vítimas da violência.
Considerando a policização, as agências policiais brasileiras e latino-americanas em geral recrutam seus operadores nas mesmas camadas sociais com maior incidência das seleções criminalizante e vitimizante. (FCC – Defensor Público / DPE-AP / 2022)
As seleções criminalizante e vitimizante dizem respeito, respectivamente, a quem é mais frequentemente rotulado como autor de crimes e a quem é mais atingido por condutas violentas. Quando a polícia recruta seus operadores nessas mesmas camadas sociais, evidencia-se um paradoxo: o agente estatal de controle muitas vezes compartilha a origem social dos indivíduos mais expostos à criminalização e à vitimização. Esse dado não é irrelevante; ele ajuda a compreender práticas, valores e tensões internas da corporação, além de iluminar debates sobre legitimidade, confiança e eficácia policial em territórios vulneráveis.
Do ponto de vista analítico para concursos, reconhecer esse padrão de recrutamento é essencial para entender a dinâmica do controle penal seletivo e os limites de reformas institucionais. A policização mostra que o desenho institucional, a cultura organizacional e a base social de onde vêm os operadores interagem para produzir resultados práticos no policiamento de rua, na gestão de conflitos e no uso da discricionariedade. Assim, compreender quem entra na polícia ajuda a explicar como se mantêm — ou podem ser contestados — os critérios pelos quais certos grupos são mais abordados, processados e punidos, e outros, menos.
Por fim, essa leitura crítica não imputa responsabilidade individual aos operadores, mas evidencia uma lógica estrutural de recrutamento e atuação. Para o concurseiro, a chave é saber enunciar o ponto: considerando a policização, as agências policiais no Brasil e na América Latina tendem a recrutar seus quadros nas mesmas camadas sociais mais atingidas pelas seleções criminalizante e vitimizante, o que repercute diretamente na compreensão dos processos de criminalização e vitimização seletivas.